Assumir que assisto Big Brother é quase tão ruim quanto declarar que chuto a bunda de gente idosa. Mas que posso fazer se meu lado voyer me trai a cada instante? A cada edição desta merda eu me prometo abrir um livro em vez de assistir ao programa, mas não consigo. OK, não sou viciada, não deixo de ir na balada pra assistir, não morro se perder um paredão, mas se estou em casa, papo pro ar comendo pipoca, não me furto ao prazer irresístivel de bisbilhotar a vida alheia, só pra descobrir que é tão simples quanto a minha. E eleger, claro, meus favoritos... quase sempre esta eleição está ligada a critérios pouco nobres (na verdade quem escolhe são meus hormônios, como acontece com quase tudo na vida). Nesta edição, estou encantada por um cara que se parece um pouco com alguém de quem tenho saudade. Quero que o cara ganhe um milhão, quero que ele seja rico, mas pelo simples prazer de assistí-lo até o final e assim pensar que monitoro indiretamente a vida desta pessoa do meu passado. Era ele quem me dizia que não há relação sem troca de alguma espécie, que sempre se busca vantagem pessoal no convívio com as pessoas. Procuro me lembrar das vantagens pessoais que obtive com ele... são tantas, mas tão sutis que não conseguiria listá-las. Acho que era o prazer da conversa, a surpresa do toque que quase nunca acontecia, e depois a saudade do cheiro que durante tanto tempo tive sempre por perto. Acho que era o prazer de vê-lo surpreso com algum gesto meu, e os gostos e ambições parecidos que tinhamos pra vida... E os discos, os milhares de discos, que alimentavam nosso papo e nossa gula, que faziam uma garrafa de cerveja virar dez, que me faziam aos poucos perceber que o que une duas pessoas é a tal da afinidade que é motivo de eliminação naquele tal programa, e que é também critério de eliminação na minha vida. Não fui agraciada com o dom de admirar a burrice. E por isso insisto tanto na pergunta: quando é que eu vou achar de novo um cara que me hipnotise tanto quanto ele, e que eu possa ter comigo pela vida afora sem ter que tomá-lo a força de ninguém?
it's meet the man of my dreams, and then meet his beautiful wife... isn't it ironic?
Irônico pensar que todas as qualidades que eu pedi num cara eu achei reunidas em um que é bundão e se casou com outra, sem amá-la. E o aspecto bundão não estava previsto nos meus planos. Isso nos mostra que os acordo, mesmo com o intangível Deus, não podem dar margem a distorções e notas de rodapé.
Vou ficar com o otimismo daquela música da Orquestra Imperial que diz assim: é bom ficar desimportante pra alguém que eu já encantei...
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